sexta-feira, 2 de março de 2012

Era Tão Perfeito...


Sinto falta do que eu não imaginava
Que tão perto da perfeição estaria;
Era tão forte e intenso e eu não sabia.
Vi que eu era mais feliz do que hoje em dia.

Então trabalhava fazendo o que gosto,
Alimentando vivos meus sonhos mortos,
Porém degustando o que a vida oferece,
Por mais que eu quisesse demitir meu chefe.

Eu tinha uma garota que me amava,
Dedicada, o peito e os olhos me enchia;
A fantasia tão áspera e delicada,
Tão doce, a dama das minhas poesias.

Ao meu lado, os amigos mais legais,
Sorrir parecia ser tão natural,
Rindo das próprias desgraças desleais;
Quisera algum momento ser imortal.

Praias, farras, festas, férias, escola, e óculos;
Onde está a galera daquelas fotos?
Onde foi parar as cartas de amor?
O cabelo, e a moça que namorou?

Eu saia, inventava, brincava, viajava,
Aventurava, jogava, enchia a cara;
Meu rock n’ roll com rios e bicicletas,
Meu jeito pateta numa alma poeta.

Com uma caneta desenrolo fitas,
Entre as velhas chatas e as crianças sadias,
O violão desafina, afinando a vida,
Entre o preconceito e as tolas rebeldias.

Na tarde arejada onde eu lia sonetos no ar,
Onde com os dedos, eu escrevia como vento,
E soprando folhas, a refrescar o tempo,
Que passava sem que eu percebesse passar.

Com sonhos mais vivos que a vontade em viver,
Chorava menos triste e ria mais alegria,
Tudo fortalecia minha fé em Deus, meu crer;
Tudo inventava naquelas tardes vazias.

Sinto falta de não sentir saudade,
E hoje vi que o que doía não estava doendo,
Era só a adolescência e sua vaidade,
Eu apenas crescia e ficava pequeno.

Hoje aqui me sinto tal um senhor,
Oitenta anos, lembrando a juventude,
Era tão perfeito; da alegria a dor,
Viveria de novo, não mais imune.

E isso é como papel amassado que não alisa jamais,
Mas ajo como um velho desdentado que ri mais e mais.
É muito bom saber que as aventuras viraram histórias,
Mas o tempo tem a ditadura de só deixar memórias.

(Hugo Arcanjo Oliveira)

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